domingo, 11 de dezembro de 2011

Postagem atrasada...

Bonito e absurdo

O estranho chamado João é desconcertante, constrangedor. João é capaz de ler a gente sem a gente querer ser lido, sendo a gente grande ou pequeno, feio ou bonito, pobre ou rico. João invade nosso sertão e descobre nossos medos, desejos e quereres. João nos emociona, quase nunca nos irrita, nos comove e intriga. João faz perguntas que ressoam em nós por um tempo quase tão grande quanto a eternidade, e nos dá respostas tão óbvias que só mesmo a gente sendo cego pra não ter visto antes. João inventa palavras que nosso cérebro estranha, mas nossa alma reconhece.
João é o menino Miguilim que nasceu lá no fundo de Minas. É o menino Miguilim quando, emotivo, abandona a medicina após ver muita espécie de dor. É Miguilim quando se espanta e quando revela: “o que Deus quer da gente é coragem”. E aí se torna a coragem de Augusto Matraga, a redenção de Augusto Matraga, a obstinação assustadora de Augusto Matraga. A obstinação de quem aprendeu muitos idiomas, o idioma do sertanejo, e o mais difícil deles: o idioma da alma. A alma comum e universal mas individual do Riobaldo, a sabedoria e a cantiga do Riobaldo, e mais o amor sagrado do Riobaldo, a competência do Riobaldo. Competência diplomática, que levou o mineiro de Cordisburgo para o mundo. João também é o mistério do Diadorim. O mistério do adiamento da posse na Academia Brasileira de Letras. É a morte de Diadorim, prematura e encantada.
João é cena, cenário, sina, sensação. É uma usina de cores, sabores, gostos, sentidos. Os pássaros, os rios, as matas e os pastos, a encruzilhada: tudo isso também é de João.  É saga, vereda. Veredas.
É fabulista, fabuloso, uma fábula de Drummond. Por encanto é conto, canto e encantamento. João é música e poesia em forma de prosa. Prosa de compadre, papo de jagunço, prece de beato.
É um pouco de dor, um tanto de medo, um mundo de riso, meio luta misturada com sonho. É “a coragem, a alegria,o amor, a reza,o fazer, o contar, enfim o viver”. João é sobretudo o perigo,perigoso mesmo é viver. João desvenda a vida: no real, é pura travessia.
João era de verdade ou se fingia? João é, João há de sempre. João é quase incrível. “Quando acordei, não cri: tudo que é bonito é absurdo



2º lugar na categoria universitários da IV Jornada Guimarães Rosa, realizada pela SOBRAMES-BH, em 14-15outubro/2011.

Um comentário:

Marília Teles disse...

Que coisa mais linda!