terça-feira, 19 de novembro de 2013

É sempre mais do que se imagina


"Amanhece com cabelos longos o dia curvo das mulheres. Que pouco é só um dia, irmãs, que pouco, para que o mundo acumule flores frente às nossas casas. Do berço onde nascemos à tumba onde dormiremos - toda a rota atropelada de nossas vidas - deveriam pavimentar de flores para celebrarmos. Nós queremos ver e cheirar as flores. Queremos flores dos que não se alegram, quando nascemos mulheres, em vez de homens; queremos flores dos que nos cortam o clitóris e dos que nos enfaixam os pés; queremos flores de quem não nos mandou à escola, para cuidarmos de nossos irmãos e ajudarmos na cozinha; flores daquele que se meteu em nossas camas de noite e nos tapou a boca para nos violar enquanto nossas mães dormiam; queremos flores de quem nos pagou menos, pelo nosso trabalho mais pesado e de quem correu, quando se deu conta de que estávamos grávidas; queremos flores dos que nos condenaram à morte, obrigando-nos a parir mesmo com nossas vidas em risco. Queremos flores daqueles que se protegem dos maus pensamentos, nos forçando a usar véus e cobrir nossos corpos. Dos que nos proíbem de sair às ruas sem a escolta de um homem. Queremos flores dos que nos queimaram por sermos bruxas e dos que nos encerraram por sermos loucas. Queremos flores dos que nos agridem, dos que se embebedam, dos que bebem e gastam o dinheiro de nossa comida do mês. Queremos flores das que fazem intrigas e levantam boatos. Flores das que não mostram solidariedade para com suas filhas, suas mães e suas noras e das que carregam veneno no coração para as de seu mesmo gênero..."

(Gioconda Belli, em 08/março/2013)

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