segunda-feira, 26 de março de 2012

Oração de Vinicius

( O Desespero da Piedade)

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem sabem inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido, forte, colosso do esporte
e que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imesa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária de Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe aonde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior do que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta - que o homem não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm a Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da muher no instante do parto
Onde ela é como água expldindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se creem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoçõ da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados - sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

(Vinicius de Moraes - trecho de "Elegia Desesperada")

domingo, 25 de março de 2012

Retrato

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
(Ferreira Gullar, traduzindo-me)
Obs: já postei mas repeti porque faz sentido hoje.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Enquanto



Por enquanto o lugar é não-sei-onde,
e o tempo um quando indefinido.
Uma clara presença que se esconde.
É de todos velho desconhecido.
Haverá um que saiba do caminho
para ir a destino tão incerto
que nem mesmo o mais sábio pergaminho
possa dizer se ele fica longe ou perto?


(Antônio Adriano de Medeiros - trecho do poema "O Canto do Encanto")

quinta-feira, 8 de março de 2012

Doce Mistério da Vida

E quanto ao processo de poesia, o Quintana sempre fala dos poemas como se fossem pássaros, e eu aprendi que pássaro é um dos únicos animais que não se deve criar, ele deve vir e ir a hora que quiser. Poesia é assim. Ninguém é poeta todo dia. Pode ser técnico em rima ou métrica, mas poeta não! E como a gente é falho vai ter dia que a gente vai ir e vir e não vai perceber a poesia de Deus, mas tem dia que Ele vai parecer tão audível através de sua criação que a gente vai achar até estranho outras pessoas não ouvirem. 




[Um dia, uma pessoa encantadora me disse essas e outras verdades que só os poetas conhecem]

quarta-feira, 7 de março de 2012

Refletir o ser

Uma das tarefas desta existência é fazer o rosto refletir o ser.
Assim como o rosto corresponde ao rosto no espelho, assim deve ser o ser.
No início, na infância, a gente é quem a gente é. 
É o crescer, com as demandas de assemelhamento ao meio, o que vai nos deformando.
Em qualquer que seja o berço, um menino nasce como qualquer outro menino. 
O meio tentará — e quase sempre conseguirá — formatá-lo.
Então, quando nos tornamos “homens”, nos tornamos menores que meninos...
Sim, mergulhados em miragens, em falsas aparências, geradas pelos calores que sobem do chão do deserto de nossas morais, normalidades, opressões, tentativas de clonagem e tiranias.
Pode ser a idade,
pode ser o cansaço,
pode ser a esperança,
pode ser a verdade,
pode ser um desígnio,
pode ser a loucura,
pode ser a aventura,
pode ser o que for...

Mas Deus sabe: eu quero me parecer com minha alma.
E quero que minha alma e meu rosto se tornem um.
Esta é minha oração.
Este é meu sonho.
Esta é minha vocação.

(Caio Fábio)

domingo, 4 de março de 2012

Como as ondas do mar...

Viver - não é - é muito perigoso.
 Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.
(João Guimarães Rosa)



A conversa imaginária mais real que já existiu no mundo:


-A vida é contingente...
-Contingente? 
-É apenas uma maneira bonita de dizer que é possível, mas incerta.  E é essa incerteza que mata, que envelhece, que nos consome. É a incerteza que nos tira o sono, nos põe a pensar por horas, nos fazer querer desistir da vida e, ao mesmo tempo, perdurar nela por séculos para dar tempo de encontrar as respostas...
-Don't you know that they're wasting your time?* Não há respostas, não há caminhos. Só existe o abandono e o vazio. Não há deuses, não há vida além, só existe nós e nosso vazio. É tudo ilusão...
-Viver é perigoso.Viver é muito perigoso. "Vida é a noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia falsa."**.
-E as respostas, elas existem? Há alguma verdade? "É ilusão. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. Todos os rios correm para o mar, mas o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez"***. Tudo é ilusão.... 
-A verdade... por que ela nos importa tanto? Por que gastamos a vida inteira em busca da verdade, se a vida é o real, o palpável... o trabalho, a comida, o dinheiro,os prazeres, as alegrias e tristezas e depois a morte? Por que não vivemos o que temos para viver e em todo tempo estamos atrás do sentido de tudo isso? E se por acaso ele não existir, teremos perdido a vida em uma busca vã?
-My lifetime to find out the truth...*
-Por que existe arte? Por que muito se fala, escreve, diz? Por que as mais belas obras nos emocionam com isso que a gente não sabe descrever? Por que tanto vicío... o que é que se busca no êxtase de uma droga, dos remédios, das fantasias? Por que tanta gente dizendo saber o que é certo? Religiosos, filósofos, poetas, pensadores...!? Quem está com a razão? Existe alguma razão? Só há duas possibilidades: apenas um  está com a verdade ou nenhum deles. Não é possível que todos estejam corretos, suas idéias são excludentes...
-"Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande"**...
-E essa beleza? Esse sabe-se-lá-o-quê que nos traz um gostinho de querer viver pra sempre? E essa saudade, incerta saudade? De onde ela vem?
-The darkness is falling...Can we wake up in time?*
-"E, o que  era que eu queria? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era - ficar sendo!"**
-Sendo?
-Sim, a gente quer ser. Ser o quê? Não se sabe... Ser aquilo para o qual estamos aqui. Ser. Mais que existir. SER. "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que nós somos"****.E pela vontade de ser é que a gente inventa a arte, os vícios, a religião,os jogos, o fanatismo, as guerras, a filosofia, a poesia...
E por querer ser, a gente às vezes deixa de pensar. Escolhemos, de alguma maneira, algo pelo qual viver.
-Give me somethingto live for*...
-Podemos viver por algo, sem questionar o porquê. Podemos apenas ir vivendo. Podemos nos dizer que estamos no caminho certo, sem dúvidas, e não aceitar que nos questionem. Mas podemos nos questionar a respeito de tudo isso... Aqueles que não conseguem viver na superficialidade, aqueles que não apenas vêem, mas enxergam, estes não aceitam as falácias das falsas certezas (uma certeza verdadeira só é gerada após a dúvida!). Estes, por sua grandeza, imergem, mergulham mais fundo na descoberta da tragicidade do nosso destino, no absurdo da nossa humanidade...
Certo ou não, ter algo pelo qual viver nos traz perseverança, e até certa segurança. Não é necessário ir muito além. Quando vier algum vento, é fácil correr e se abrigar, independente se o abrigo é verdadeiro ou falso, certo ou errado...ele sempre está lá...
-E o vazio?
-O vazio é do tamanho do mundo. Só pode haver uma coisa, aquela coisa, aquilo que não se sabe, que enche esse vazio. Mas ele pode ser parcialmente preenchido. Podemos colocar dentro dele idéias,crenças, substâncias,pessoas, instituições... o que for preferível, cada um é cada um. Isto é válido pra maioria porque cobre parte do vazio e funciona como um analgésico potente pra fazer esquecer a dor que ele causa...
-Time is bleeding, keeps repeating*...
-Aqueles que não vivem com nenhum desses analgésicos, aqueles que mergulham mais fundo, vivem na incerteza, na angústia incerta! "Pois quem duvida é como as ondas do mar, que o vento leva de um lado para outro...*****" Estes acabam vivendo na ilusão de seus sentimentos. Alguns, sem saber, passam a se buscar no outro. No afeto, no carinho....na exigência de algo que lhes faça bem. Vivem na solidão, mas procuram fugir de si mesmos quando encontram outro que os olhe de maneira diferente. Ou vivem na iminência de explosão,irritando-se, sendo intolerantes... é cada vez mais comum...
-E a tristeza?
-Sim! Como pude me esquecer? Ainda há a tristeza. E qualquer outro sentimento... como poderia eu, mortal, saber todo o resto? As possibilidades são infinitas. Uma vida assim é incerta, como as ondas do mar, como folhas ao sabor do vento...
-You've got to show me that we can live for today* ...
-A resposta? Quem as tem? Onde estará? Ah, esta vida! Viver é muito, muito perigoso...
-“Eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza. Quero os todos pastos demarcados...como é que posso com este mundo?**” 
Eu quero o sim, o real. Eu quero respostas!Quero o x, o valor exato da equação!!!
-“ A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado**."
 Para esse tipo de questão há uma resposta, mas não existe uma equação. "O essencial é invisível aos olhos*****"." Tudo o que é bonito é absurdo**". 
A verdade é sempre absurda... esta vida não é, por si só, um grande absurdo?!?!
-"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma, dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas que a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já inventada, num papel..."**
-Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros fortes significados"**...
-Eu quero achar o caminho...quero encontrar a verdade...quero vida...
-We're finding a way*... Are we finding?... Vamos,não deve estar longe de nós. Eu posso quase sentir, você pode? Deve estar em algum lugar por aqui. Deve haver alguma pista... "Muita coisa importante falta nome*"... "Não prestamos atenção nas coisas que se veem, mas não que não se veem. Pois o que pode ser visto dura apenas um pouco, mas o que não pode ser visto dura pra sempre.*******"
-Não quero o que dura apenas um pouco. Não quero mais viver em ciclos...
-E se o essencial for mesmo invisivel aos olhos?
-Como vamos encontrar? Como vamos saber?? Como teremos certeza???
-Acho que encontrei uma lanterna... podemos caminhar entre as ondas... a Lanterna dos Afogados...Há um cais de porto pra quem precisa chegar********.. vamos?!....
-Quem sabe um dia? Por ora, vou fingir que está tudo bem e me lançar ao perigos do mar...