quinta-feira, 14 de julho de 2016

Quando.

POÉTICA


De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.


A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.
(Vinicius de Moraes)

domingo, 25 de outubro de 2015

a Esperança

Louvado seja Deus,o Criador
Pois eu sou pó e lama
Sou vento,folha solta,areia
Mas Ele me faz barro,me refaz vaso
Me dá raízes,frutos,água
Me torna árvore junto a ribeiros

Louvado seja Deus,meu Redentor
Pois sou caminhante vagando a esmo
Sou pobre,cego,surdo e nu
Mas ele se faz guia
Mostra aos meus pés o caminho
E chego à Rocha em segurança

Louvado seja Deus,meu Consolador
Pois me confundo e perco a rota
No escuro vagueio sob incertos sentimentos
Mas se em desespero,espero
Ele torna em luz concreta a mais densa e abstrata treva
E enfim vejo: resplandecente Esperança

(23 outubro/2015)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

a maior riqueza do homem é a sua incompletude



Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. 

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio, 
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis, 
que vê a uva etc. etc. 

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Procura da Poesia

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

(Carlos Drummond de Andrade - trecho de "Procura da Poesia")


Pra Marília .E pra Ana.
Que Deus e a criatividade nos permitam sobreviver às mudanças da vida continuando amigas. E poetas do cotidiano. Aos 17,21,25,30,...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Além do (boja)Dor

Nota mental:

"É preciso muita coragem e grandeza existencial para reconhecer que não se tem talento para determinada vocação e, suando e sangrando, trilhar o caminho de (re)encontrar a missão de Deus para a vida. Só quando nos vemos 'libertos do que não somos, descobrimos que o nosso chamado capacita-nos a descobrir o que somos'."


segunda-feira, 23 de março de 2015

Sentido

"A uns,Deus os quer doentes,


Não escrevo e nem adoeço.
O que queres de mim?

Doença tem fisiopatologia,epidemiologia,diagnóstico,tratamento.
Ás vezes,até cura tem.

Escrita tem quem leia,tem quem sinta,tem quem traduza
Algumas vezes tem utilidade prática. Noutras vezes, só a beleza. Mas sempre tem.

E eu,que não adoeço nem escrevo,faço o quê?

Eu que cheguei na encruzilhada,ou no fim do caminho. Eu que a vida inteira fui chegando até aqui e nunca chegava. E agora que voltei e cheguei,o que faço? Não adoeço. Não escrevo mais. Até o que já sou não é.

Me implora amor,Deus. Me implora, mundo.
Implora, que eu volto a ser.
Implora, que eu serei.
Implora,que eu sei que sou.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Viver é muito perigoso (16)

 "Da janela do meu quarto do Hospital Emílio Ribas, na avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, eu via as pessoas caminhando, de bermudas, tomando ônibus, entrando num, e eu dizia: meu Deus, que luxo que é viver, que coisa maravilhosa que é poder andar na rua, como a vida é preciosa e frágil. "

Caio Fernando Abreu