quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O que alcancei e o que ainda virá (2)

O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos,para nos fazerem parentes do futuro.
(Mia Couto, "Terra Sonâmbula")

sábado, 22 de dezembro de 2012

O que alcancei e o que ainda virá



Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado,mas prossigo para alcançá-lo
Não penso que eu mesmo já o tenha alcançado,mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante,prossigo para o alvo
Todos nós que alcançamos a maturidade devemos ver as coisas dessa forma
Tão somente vivamos de acordo com o que já alcançamos.

Trechos da carta de Paulo aos Filipenses


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Viver é muito perigoso (12)

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba não

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

***

A Bíblia já dizia 
Pra quem sabe entender
Que há tempo de alegria
Que há tempo de sofrer
Que o tempo só não conta
Pra quem não tem paixão
E que depois do encontro
Sempre tem a separação
Que o dia que é da caça
Não é dia do caçador
E que na alternativa
Viva e viva
E viva o amor

A gente vem da guerra
Pra merecer a paz
Depois faz outra guerra
Porque não pode mais
E deixa andar e deixa andar
Até a guerra terminar
Vamos curtir,vamos cantar
Até a guerra se acabar

***

A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida


Doses profiláticas de consolo por Vinicius de Moraes

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A dois passos

Certas pessoas
certo brilho na troca de olhar
sorriso gostoso do cotidiano
problemas que gostaria de entender
e ao mesmo tempo ternura 
pra aceitar defeitos tão singulares de uma pessoa
Enfrentar o real
sentir o sabor do cuidado, da conversa,
do crescimento mútuo.

Estamos a um passo do amor real em nós.

(Natália Cortelette)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Eu escolhi ver

"Eu preciso dessa sensação boa, sabe, de encontrar os humanos por aí. Mesmo com tanta falta de humanidade nesses espaços para onde vou. Mas humano é isso tudo: essa crueldade, mas também essa riqueza; essa maldade, mas também esse acolhimento do outro. Quando você não tem nada, mas você ainda tem espaço para acolher alguém dentro de você, é interessante, bem interessante. E aí você se dá conta de que o material não é nada. 

As pessoas não querem ouvir mais. Mas hoje eu já compreendo. Ok, elas não escolheram esse mundo para elas, eu não tenho o direito de forçá-las a um mundo que não querem. Cada um tem a sua escolha. Inclusive, a escolha de dizer: “Eu quero viver nesse outro mundo”. E a alienação também traz felicidade. Você não saber de tudo, você não saber de uma série de penúrias e de desgraças do mundo também te traz um conforto e uma sensação de felicidade de.... Ok, tudo o que eu sei é que meu filho está bem alimentado, dormindo num bercinho bonito, que acabei de reformar o quarto dele com um arquiteto. Está tudo ótimo. Tipo, a alienação também é isso, também traz conforto. Mas eu não escolhi esse lado. Eu escolhi saber, eu escolhi ver."

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI228050-15230,00-MINHAS+RAIZES+SAO+AEREAS.html

sábado, 24 de novembro de 2012

Novas descobertas: a angústia da paz


Oh! a alegria das coisas com aquela mudança

Para onde? Não importa! Desde que não seja

Este eterno mesmo lugar!

Mário Quintana

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Descobri o que (não) é a coisa mais fina do mundo

Ensinamento 

Minha mãe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.

(Adélia Prado)

domingo, 11 de novembro de 2012

A vida é a arte do encontro (4)

Para minha amiga Marilia

Pássaros-poema
Anjos barbudos
A gaiola ficou vazia:
                           O que é sonho e o que era realidade?

Mudanças (in)visíveis
Ouvidos atentos
A travessia segue em passos firmes:
                                   Vida compartilhada além da imaginação


Palavras
Silêncio
Presença 
Ausência
Saudade.

            Amizade com sabor de eternidade

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Brotou do chão a poesia
na forma de uma plantinha
espigada,perfumosa,
se abrindo toda pra mim:
mensageiro da alegria,
era um pé de alecrim
que dourou a minha vida...


Passou por mim a poesia
na forma de uma gatinha
amarela,tão macia!,
uma bola peludinha
que chegou bem de mansinho...
Batizei-a de Chiquinha,
fiquei com ela pra mim.

Entrou em mim a poesia
na forma de uma canção
que falava de uma rua
com pedrinhas de brilhantes
e de um anjo solitário
que vivia por ali
e roubou meu coração

Gritou no mato a poesia
quando caiu a notinha:
era um concerto de grilos,
tantos astros em seresta,
pois era dia de festa,
e dentro da boca da noite
cantaram um coro sem fim...

Brilhou pra mim a poesia
na forma de uma lua cheia
e de um céu estrelado
despencando no telhado
de zinco avarandado,
pronto para ser pisado
por alguém bem distraído...

Cresceu em mim a poesia
na forma de uma tristeza,
um chorinho derramado
no silêncio da varanda.
Veio vindo,foi chegando
- carregado pelo vento? -
e tomou conta de mim

Caiu do céu a poesia
na forma de uma chuvinha,
pingos grossos, cheiro doce,
que molhou as redondezas,
encharcou os meus cabelos,
inundou a minha vida
e levou minha tristeza.

Sorriu pra mim a poesia
na forma de um amigo
- mão estendida,carinho,
e estar juntos,quietinhos
ou ouvindo, ou contando,
ou rindo e barulhando... -
e abraçou minha vida.

Me arrebatou a poesia
trazida pelas palavras
abrigadas entre as páginas
do livro que alguém lia
e que deixou por ali:
mundo entrando pelos olhos,
enriqueceu minha vida.

Agora,sempre que quero
saber cadê a poesia,
dou um pulo na varanda,
me debruço - e espero:
quem sabe se de repente
ela volta e,simplesmente
vem contar por onde anda...

(Sônia Junqueira, Poesia na varanda - Coleção de Livros Infantis)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo (2)



Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável. 
Muita coisa importante falta nome.
(João Guimarães Rosa)

domingo, 28 de outubro de 2012

How great the power of love



Sometimes
When we think of you
We cry


Sometimes
When we think of you
We cry

Sometimes
When we think of you 
We laugh

Sometimes
When we think of you
We laugh loudly

Sometimes
When we think of you
Whe can't believe you're gone

Sometimes
When we think of you
Whe can't believe you're gone


Oh
How great the power of love







Este poema é uma das muitas belas homenagens que formam o projeto "AIDS Memorial Quilt".
As homenagens personalizadas são feitas por pessoas que perderam entes queridos, falecidos por causas relacionadas a AIDS.

Conceitos que as palavras não podem conter




Dir-se-á que “alma” é um conceito confuso; creio que de modo algum é desprezível. Sua “confusão” se deve à multiplicidade de seus sentidos, dos contextos em que se usa, de sua longa história. É o destino de quase todas as palavras importantes, e é uma razão para não abandoná-las nem excluí-las. Se tiveram vida tão longa e interessante, será por algum motivo. Que diríamos da palavra Deus?

(...)

É como se a revelação tivesse querido acumular todas as dificuldades imagináveis para a compreensão. Não será que essas “dificuldades” são as que permitem que seu conteúdo possa ter pleno sentido, ser, a partir da fé, inteligível?


(Julián Marías, em “A perspectiva cristã”)

domingo, 14 de outubro de 2012

Viver é muito perigoso (11)

Penso em Vida, na morte da vida.
Penso em morte, a morte para a Vida.
morrer e Viver a cada dia?
Percorrendo o Caminho
Um desafio,
uma delícia
Esperança pressentida.


(Natália Cortelette)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Alma exposta

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

(Trecho do poema "O Haver",de Vinicius de Moraes)

sábado, 8 de setembro de 2012

Mulher ao cair da tarde

Ó Deus, não me castigue se falo
'minha vida foi tão bonita!'
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso, eterno.

Adélia Prado

domingo, 2 de setembro de 2012

O Hoje é tudo que tenho


Pelo dia
Pelo sol
Pela vida
Pela família
Pelo riso fácil e sincero
Pelas surpresas cotidianas
Pelo amor que lança fora meus medos
Pela paz que excede meu entendimento
Obrigada,Deus

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O que era saudade,agora é presença.

Era uma vez a Palavra, e ela era Deus.
A primeira gota – chuva, madrugada, lágrima –
Tinha seu hálito, seu sabor.
A Palavra iluminou a vida.
E todos os olhos a viram,
Com estupenda surpresa:
“Vejam! Vida, útil, bela, faz sentido!”
Tudo se encaixa; e, do encaixado, nascem cores e versos.
A Palavra, ela própria, se fez gente,
E começou a caminhar entre nós.
Frágil no início, gloriosa no final.
Andou pelas ruas sujas das cidades e das almas,
E chorou.
O que era saudade, agora é presença.
É riso junto, amor compartilhado,
Abraço.
Sem início e fim, porque o Eterno está.
Todos os conceitos do mundo se rendem à Palavra.
Ela, que não quis se apequenar a conceitos;
Ela, que é uma Pessoa, o Único Filho,
Que enche a vida de graça e verdade.
Todos os mistérios, aliviados, o adoram.
A Palavra saiu do inescrutável,
Vestiu a roupa de casa,
Comeu, bebeu, amou.
E alimentou o sol com sua glória.

(Lissânder Dias - Prólogo de João)

sábado, 11 de agosto de 2012

Até o fim

Sábias palavras 
do profeta Chico
mas vou até o fim"

Já nem sei de onde vim
Já nem sei pra onde vou
como vento
como Espírito
que sopra onde quer
não se sabe de onde vem
não se sabe pra onde vai

Onde essa estrada vai dar
Não tenho pressa de saber
Não tenho pressa de chegar

Contemplar o caminho
Encontrar
Descobrir
Crescer 
Mudar

Quem sabe no fim eu descubra
Que não existe o fim
Só o caminho e o caminhar


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O que sei,o que sou



Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
(Adélia Prado, em "A Invenção de um Modo")











sábado, 4 de agosto de 2012

A maior das virtudes

 ‘É preciso recorrer à força ou ao amor humilde?’
 Não empregueis jamais senão esse amor; podereis assim submeter o mundo inteiro. A humildade cheia de amor é uma força tremenda, sem nenhuma outra igual.”
(Dostoiévski)




sexta-feira, 27 de julho de 2012

Eu gosto.

Não gosto desse passarinho.
Não gosto de violão.
Não gosto de nada que põe saudades na gente.
(João Guimarães Rosa)



terça-feira, 17 de julho de 2012

Doce Mistério da Vida (3)


Deus é mistério, e homem e mulher à imagem de Deus são mistério. Quando estamos perante outra pessoa -não importa quão pobre, incapaz, doente ou degradada - estamos perante algo que é veículo do divino, algo que na terminologia clássica de Martin Buber, 
é Tu, e não Algo.
(Vinoth Ramachandra)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Caminhada


Ele sempre estava andando pelas ruas. Não a dizer poesias. Ele só andava disposto. Disposto a falar com as pessoas e sobretudo disposto a olhar para as coisas. E não é isso que nos faz poetas?


"Pro moço do tempo


Se quiser andar até onde for o olhar
deixo estar assim
em paz
vou te acompanhar
venço a pressa
entendo o passo
sou mais eu se fico com você
aprendo a caminhar com passos firmes
é só te dar a mão
e sair."


O poeta, sabendo da temporalidade de cada um, decidiu caminhar bem com o seu tempo.




Trechos de "O descuido do poeta", de Felipe Vellozo. Disponível aqui)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Médicos e médicos (5)


Virchow foi um liberal durante toda sua vida, em uma sociedade alemã cada vez mais militante, e durante a juventude teve uma veia de radical político. Ele encabeçou um grupo reformista formado por jovens médicos durante as revoluções que acompanharam a epidemia de cólera em 1848 e passou um certo tempo nas barricadas montadas pelos revolucionários em Berlim. Com intenção de afastá-lo para um lugar remoto, as autoridades prussianas o mandaram investigar uma epidemia de tifo na Alta Silésia, que agora é parte da Polônia, mas à época estava sob influência da Prússia. Ele escreveu um relatório que não era o que as autoridades gostariam de ler, atribuindo a causa da epidemia à carência social, à pobreza, ao analfabetismo e à desigualdade política. Essas e outras epidemias similares seriam controladas melhor, argumentou, por meio da democracia, da educação e da justiça econômica. Ele acreditava que o simples ato de fazer campanha por tais reformas era um importante papel a ser desempenhado pelos médicos. Eles eram os defensores naturais dos pobres, já que sua profissão os colocava em contato direto com as causas econômicas e sociais das doenças.
Virchow sempre manteve seu interesse pela política e pelas reformas sanitárias, atuando no parlamento alemão e no Conselho de Saúde de Berlim. Gostava de comparar o corpo político ao corpo humano, com as células retratadas como os cidadãos do corpo. Médicos tinham que enfrentar diariamente os efeitos adversos que a pobreza causava à saúde. Esse homem incansável ainda investiu em seus interesses nas áreas de antropologia e arqueologia e editou diversos periódicos e livros de múltiplos volumes.
(...)

(História da Medicina - William Bynum)

A Concha: canção no silêncio

O que vai gerando a vida não é a pressa, mas o suor do dia-a-dia, a renúncia de estar entre amigos, de sentar-se sozinho e chorar, de sentar-se sozinho e estudar e trabalhar, a renúncia do imediato, a renúncia dos holofotes, a proteção dos sonhos contra chuva, vento e calor, contra inveja, ganância e competição.


Esperança é ver novos dia em cor inda que a matiz à frente se nos afigure como cinza. Esperança é quando faz-se canção no silêncio. Esperança é ver, inesperadamente, paz em meio às nossas guerras e ver o céu, como um pálio aberto, se encher de estrelas. Esperança é transbordar em meio às contrariedades e render-se à doce poesia da vida que nos ensina que até mesmo o sal ressalta-lhe o sabor. Esperança é ver até mesmo nas linhas não escritas da nossa vida um motivo para agradecer e recomeçar.


A esperança nos faz forte, ainda que fracos; enxergando, ainda que cegos; ouvindo a música da vida, ainda que surdos; crendo, ainda que não querendo crer...


(Áquila Mazzinghy, em Contemplações da Esperança 1, de novo por aqui)

domingo, 1 de julho de 2012

Soberano e explícito amor

Vou e sei quando voltar
Sem me perder, sei de mim
Sei da paz,mas sei lutar
Ora, eu sei da liberdade e fim



Sei que a minha vida é como um quadro
Uma obra que ainda não foi acabada
E a mão do artista não cessa
Faz seu grande trabalho, obra prima em mim...




(Carlinhos Veiga, "Cascos no Chão" e "Acuípe")

terça-feira, 26 de junho de 2012

Variações

Uma parte de mim é só vertigem...







...Outra parte, linguagem.

(De  Traduzir-ze, por Ferreira Gullar)

Cada ano a vida pede mais de mim (2)


O que a vida quer nos dar

Daí eu queria ser crescida
Maior que minha estatura
Do tamanho das criadas
Da casa de sinhá

Mas, me vestia ainda
Feito uma menina
Fora do lugar

E me disseram
Vê se espera um pouco
Ainda és muito novo
Pra ganhar

Mas, a vida é bem esperta
 E me ensina a esperar
Sinto, vejo o tempo que passa
Ele me dá a mão e me leva pra passear

Lá a gente conversa
Ele faz uma reza
Vamos descansar

Pois não adianta antecipar
O que a vida quer nos dar

Deixa o tempo passar
É ele que nos leva e faz experiências ganhar
Deixa também as palavras
Elas virão quando eu menos esperar

(Marília Teles Cavalcante)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os sem eira nem beira

Estão  à margem, à beira:
Á margem dos direitos, à beira da miséria
Á margem dos hospitais, à beira da morte
Á margem das escolas, à beira da alienação
Á margem do trabalho, à beira da fome


Por outro lado...
Á margem da competitividade, à beira da solidariedade
Á margem da acumulação, à beira da partilha
Á margem do lucro, à beira da gratuidade
Á margem do individualismo, à beira da fraternidade


(Carlos Queiroz)




Há esperança...

sábado, 16 de junho de 2012

Maria, Maria

 “Maria! Seja pura, seja dura, apenas siga o seu caminho, não esqueça. E ela assim o fez, e o menino nasceu e cresceu cheio de sabedoria, graça e ousadia. Ele sempre vivia dizendo: ”Pessoal, no mundo tereis aflições, mas tendes bom ânimo, não desanime e bola prá frente”

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Sina desdobrável

Com licença poética 
(Adélia Prado)
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Caminhada Poética

Com Crombie
carreguei no coração canções,
caminhei esperando
Esbarrei na pedra que estava no meio do caminho.
Reparei que lá
As flores enfeitam os vestidos e destinos
Parei no botequim do Noel
Conheci o carinhoso Pixinguinha
Ouvi o Cartola que falou
Sobre as coisas boas da vida
Conheci as canções-poesia do Chico
Me deparei com o menino do Anysio
Partilhei a bagagem com Adélia
Foi o sempre amor
"A poesia é invenção da verdade"
que esteve aqui
No canto dos passarinhos
No caminho para Pasárgada
Onde sou amigo do rei
Trouxe a humildade Coralina
Desnudou a vaidade da Florbela
E acompanhou-me a poeta
Compartilhando a Rosa do Guimarães
e a poesia que dói-me a vida




Obrigada, amiga poeta.
 Muito obrigada.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Doce Mistério da Vida (2)

Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempostravessia da gente?
(João Guimarães Rosa)



domingo, 27 de maio de 2012

Descrição

Felicidade nata, inata
Não podemos controlar
in(out)side
Estalar de dedos
pular, descabelar, delirar
dançar na chuva, no deserto
me perder em vc outra vez?
Ah felicidade inata, nata
adquirida? 
vivida, sentida.. esperada

Tá dificil?
olhe nos nossos olhos loucos
rir um pouco do desespero 
faz bem pra ser.
A outra parte desse bem
fica pra gente resolver
a parte, a sós, juntos?
Completamente insanos
nos bastamos pra fazer.


(Natália Cortellete, linda!)

Cotidiano (2)

Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos, e qual é a sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura.
A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada leitor é um co-autor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo em que habita.
(Leonardo Boff)


É óbvio que cada um enxerga com os olhos que têm e a partir de onde os pés pisam. Por ser leitor do Poeta Manoel de Barros também acredito que a melhor forma de se conhecer é fazendo o contrário. Talvez, seja por isso mesmo que muitas vezes sou do contra...
(Edilson Pinto)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Como é que Jesus, uma pessoa equilibrada e sempre disponível, poderia se angustiar? O equilíbrio cristão, porém, não é o ideal budista de impassibilidade. Não depende de "estar de bem com a vida". Um senso forte de missão e de necessidade pode coexistir com a calma e com a disponibilidade.
(Paul Freston em "Nem Monge Nem Executivo")


Eu quero a angústia da paz.

Graça me basta (7)

Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite 
minha pobreza tal como sempre foi. 

Que não sinta o que não tenho. 
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.



(Cora Coralina)
























quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cotidiano

A transversalidade requer de cada um enorme paciência para o estranhamento, para ouvir vozes dissoantes, para compreender as lógicas de campos do saber tão diferentes. 
(Sérgio Adorno)


(...) é necessário compreender que o outro não é, não pode e não deve ser conforme a minha imagem. Antes, na singularidade está registrada a multiforme beleza da criatividade do Pai, que é infinitamente maior que nossas limitadas capacidades de conceber a realidade e que se expressa na multiplicidade de percepções de suas criaturas. 
(Carlos e Dagmar Grzybowski)

domingo, 6 de maio de 2012

E aí, José?



Estavam ali parados. Marido e mulher.
 Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
 tímida, humilde, sofrida.
 Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
 e tudo que tinha dentro.
 Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
 novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
 O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
 entregou sem palavra.
 A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
 se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
 E não abriu a bolsa.
 Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
 e a mulher participa sem ajudar.
 Da mesma forma aquela sentença:
 "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
 Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
 o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
 e ensinar a paciência do pescador.
 Você faria isso, Leitor?
 Antes que tudo isso se fizesse
 o desvalido não morreria de fome?
 Conclusão:
 Na prática, a teoria é outra.

(Cora Coralina)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Inspiração (2)

Sim, veja, penso desta forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Conheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem, ou chegam a fazê-lo quando é demasiado tarde. Por isso, tudo é muito simples para mim, e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa tarefa.
(João Guimarães Rosa)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Infinito variável

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.



(Carlos Drummond de Andrade, em " A hora do cansaço")

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Via alternativa


Sonho que sou a Poetisa eleita
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!


Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!


Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!


E quando mais no céu eu vou sonhando
E quando mais no alto eu vou voando, 
Acordo do meu sonho...


                    E não sou nada!...


(Florbela Espanca)






(...) Poeta, não é somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia,
se extasia sensível ao achado
de uma rima, à autenticidade de um verso. (...)

(Cora Coralina)







segunda-feira, 16 de abril de 2012

Encantos em contos (2)

Não preciso inventar contos, eles vêm a mim, me obrigam a escrevê-los. Acontece-me algo assim como vocês dizem em alemão: Mich reitet auf einmal der Teufel que neste caso se chama precisamente inspiração. Isto me acontece de forma tão conseqüente e inevitável, que às vezes quase acredito que eu mesmo, João, sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo...
(João Guimarães Rosa)


Fonte: http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/GuimaraesRosa-1965.htm

quinta-feira, 12 de abril de 2012

E era tão sincero
Tão puro
Tão real
Que sua poesia se fazia ouvir
Mesmo no silêncio.
               Sobretudo no silêncio. 





Em meio aos gritos das inquietações e incertezas
O silêncio soava ainda mais forte
Dizendo: 
permanência
paz
calma
quietude
esperança

Ah, como eu amo teu doce silêncio...