segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A poesia me salvará

Te explico onde arranjei esta beleza toda.
Foi no deserto,
entre camelos e escaldante areia.
Brincadeira,meu deserto é o pasto,
o cerrado magro onde passo horas
caçando folhas de bugre,as diuréticas,
pro coração ficar leve.
Da cabeça aos pés de mim,
eu só quero saber do fascinoso mistério:
No céu não tem casamento,
mas namoro não tem fim.
Desculpa 'esta beleza toda',
exagero meu,simpatia está bom
e deleta 'escaldante areia'.
O apóstolo Paulo ensina uma cartilha
onde amor é gramática,
muito semântico pra mim
que só em te ver fico asmática




De onde vens,graça que me perdoa
desta tristeza,
desta nódoa na roupa,
da seiva má no sangue,
da pele rachada em bolhas.
De onde vens,certeza
de que um pouco mais de açúcar
não fará mal a ninguém.
O orgulho fede como um bom cadáver,
minha cerviz é dura,
mais duro é o vosso amor,deus escondido
donde jorram tormentas,
minha nuca dobrada a este repouso
e esta alegria.




("Em Mãos" e "Da mesma fonte", Adélia Prado)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Médicos e médicos (6)

(...) costumava dizer que sua ideologia era um híbrido: cristão em religião, pela figura amável de Jesus e sua evidente preferência pelos mais fracos; marxista em economia, porque detestava a exploração econômica e os infames abusos dos capitalistas; e liberal em política, porque não suportava a falta de liberdade e as ditaduras, nem mesmo a do proletariado, pois os pobres no poder, ao deixarem de ser pobres, não eram menos tirânicos e desumanos que os ricos.
(Héctor Abad, sobre seu pai, em "A ausência que seremos")


sábado, 7 de dezembro de 2013

É mar?



Mãe, o que é o mar,Mãe?
Mar era longe,muito longe dali,espécie duma lagoa enorme,um mundo d'água sem fim,
Mãe mesma nunca tinha avistado o mar,suspirava.
Pois,Mãe,então mar é o que a gente tem saudade?

(João Guimarães 'Miguilim' Rosa)


sábado, 30 de novembro de 2013

Ler o Mundo

"- a verdade é que, embora presumindo o contrário,dedicamos, de modo geral, pouco estima às especulações intelectuais - mas amor à frase sonora,ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. É que para bem corresponder ao papel que,mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda,não instrumento de conhecimento e ação.
(...)
Não lhe ocorre um só momento que a qualidade particular dessa tão admirada "inteligência" é ser simplesmente decorativa, que ela existe em função do próprio contraste com o trabalho físico, por conseguinte não pode supri-lo ou completá-lo, finalmente, que corresponde, numa sociedade de coloração aristocrática e personalista, à necessidade que sente cada indivíduo de se distinguir de seus semelhantes por alguma virtude aparentemente congênita e intransferível, semelhante por esse lado à nobreza de sangue."
(Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil")


"O que gostaríamos de dizer aos nossos amigos e amigas é que a nossa geração não aprendeu – mas precisa – que os livros não são simplesmente bons. A valorização da cultura letrada, em detrimento da oral, esqueceu de nos contar que escritores e escritoras são pessoas comuns, impregnadas de cultura e intenções revolucionárias ou contrarrevolucionárias. Ainda não aprendemos que os livros escritos e/ou veiculados até hoje, em sua maioria não nos representam – ou pior – depõem contra o nosso povo. Eles nos ensinam, por exemplo, que a história do povo negro no Brasil se esgota ou na escravidão ou na religiosidade ou na culinária – quando, na verdade, o povo negro tem sido o motor que faz com que este país se mantenha economicamente vivo. Nos ensinam(...) que a elite brasileira não tem nenhuma responsabilidade na miséria econômica e intelectual na qual vivemos.
(...)
E o que surge hoje como revolucionário e necessário,em pouco tempo pode se tornar contrarrevolucionário. Precisamos ficar atentos para enxergamos o quanto antes essas mudanças e reformularmos também as nossas estratégias. Isso vale para os livros que escrevemos ou editamos,os saraus que participamos,as bibliotecas que montamos,as pessoas que atendemos em nossos trabalhos sociais,nossos relacionamentos amorosos e todas as nossas bandeiras"

('Dinha e Du')

terça-feira, 19 de novembro de 2013

É sempre mais do que se imagina


"Amanhece com cabelos longos o dia curvo das mulheres. Que pouco é só um dia, irmãs, que pouco, para que o mundo acumule flores frente às nossas casas. Do berço onde nascemos à tumba onde dormiremos - toda a rota atropelada de nossas vidas - deveriam pavimentar de flores para celebrarmos. Nós queremos ver e cheirar as flores. Queremos flores dos que não se alegram, quando nascemos mulheres, em vez de homens; queremos flores dos que nos cortam o clitóris e dos que nos enfaixam os pés; queremos flores de quem não nos mandou à escola, para cuidarmos de nossos irmãos e ajudarmos na cozinha; flores daquele que se meteu em nossas camas de noite e nos tapou a boca para nos violar enquanto nossas mães dormiam; queremos flores de quem nos pagou menos, pelo nosso trabalho mais pesado e de quem correu, quando se deu conta de que estávamos grávidas; queremos flores dos que nos condenaram à morte, obrigando-nos a parir mesmo com nossas vidas em risco. Queremos flores daqueles que se protegem dos maus pensamentos, nos forçando a usar véus e cobrir nossos corpos. Dos que nos proíbem de sair às ruas sem a escolta de um homem. Queremos flores dos que nos queimaram por sermos bruxas e dos que nos encerraram por sermos loucas. Queremos flores dos que nos agridem, dos que se embebedam, dos que bebem e gastam o dinheiro de nossa comida do mês. Queremos flores das que fazem intrigas e levantam boatos. Flores das que não mostram solidariedade para com suas filhas, suas mães e suas noras e das que carregam veneno no coração para as de seu mesmo gênero..."

(Gioconda Belli, em 08/março/2013)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quem sabe?

Perene.
Certeza.Mutável.
Sentimento.Medo.Coragem.Silêncio.Erro.
Novo.Velho.Erro de novo.Alegria.Esperança.Renovo.
Invenção.Grito.Força.Firme.Pequena.Dúvida.Esquerda.Centro.Equilíbrio.Revolta.
Medicina.Morte.Vida.Saúde.Sociedade.Mudança.Preguiça.
Literatura.Educação.Lugarcomum.Diferença.Justiça.Oração.Canção.
Fé.Arte.Cabelo.Dormir.Crescimento.Definição.Procura.Cansaço.Displicência.
TravessiaTravessiaTravessia.
Choro.Desistir.Insistir.Persistir.Desistir.Decidir.Começo.Exposição.Esconderijo.
Reçomeço.Deus.Graça.Jesus.Misericórdia.
Miséria.Incompletude.Finito.Absoluto.Inquietude.Paz.Desequilíbrio.
Sonho.Escada.Queda.Atraso.Família.Amor.Amizade.Paixão.Amor.Saudade.
Segurança.Pressa.Aprendizado.Futuro.Pecado.Paz.Paciência.
Mundo.Viagem.Devagar.Expressão.Impressão.
Permanência.Eterno.
Incerteza.



Viver é muito perigoso.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

The paradoxical opression

Amid torture and opression poverty (were) people living in gratitude and peace. I found less fear than in those living in countries such as ours, where so many possess so much. And I suddenly realized another aspect of opression - the opression not simply of the poor and downtrodden,but the paradoxical opression of the ones in power. For the other side of the poverty of the nations of the South is the fear and guilt and loneliness of the North. The suffering of affluent countries such as ours - our anxiousness and loneliness - comes as a hidden consequence of our ignoring those who are less fortunate. It accompanies our unjust extravagance.
(Henri Nouwen)

domingo, 28 de julho de 2013

Aqui é o estrado para os teus pés, que repousam aqui, ondem vivem os mais pobres,mais humildes e perdidos.

Quando tento inclinar-me diante de ti, a minha reverência não consegue alcançar a profundidade onde teus pés repousam, entre os mais pobres,mais humildes e perdidos.


O orgulho nunca pode se aproximar desse lugar onde caminhas com as roupas do miserável, entre os mais pobres,mais humildes e perdidos.

O meu coração jamais pode encontrar o caminho onde fazes companhia ao que não tem companheiro, entre os mais pobres,mais humildes e perdidos.

(Tagore)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mudar o mundo: como faz?

"a tarefa principal, a meu ver, não se dará em dias de empolgantes e dramáticas saídas às ruas. Será algo mais entediante, difícil, tortuoso, no árduo caminho do compromisso e da participação em todos os níveis de uma sociedade organizada. Tampouco seja o caso de somente “buscar votar melhor da próxima vez”. De nada adianta esse ou aquele no poder, se o “gigante desperto” continua dormindo na maior parte do tempo, quando o que passa na tela da tevê exerce menos fascínio e sedução. Quando se requer diálogo, longas negociações, criatividade, meter a mão na massa, sujá-la em serviço digno aos demais, talvez nessas horas não tenhamos uma multidão tão ávida. Ou talvez sim, o tempo dirá."
(Ricardo Wesley)

"Mas não se ganha a história por momentos revolucionários e,sim, por múltiplas e complexas lutas, em um conjunto de diferentes decisões e possibilidades, que muitas vezes cercam e complementam - e até suplantam - esses momentos"
(Lawrence Grossberg)

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Nudez

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Are not all lifelong friendships born at the moment when at you meet another human being who has some inkling. . .of that something which you were born desiring, and which beneath the flux of other desires and in all the momentary silences between the louder passions, night and day, year by year, from childhood to old age, you are looking for, watching for, listening for?"
(C. S. Lewis)

sábado, 8 de junho de 2013

Gente

"Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana,em profundidade, que deve ser doença." 
(Cecília Meireles)

domingo, 2 de junho de 2013

Proféticas

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem
medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas? E
que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
você, e furiosa: é agora, nesta contramão.


(Ana Cristina César)

terça-feira, 14 de maio de 2013


Bem sei que, muitas vezes, 
O único remédio 
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, 
A dívida, o divertimento, 
O pedido de emprego, ou a própria alegria. 
A esperança é também uma forma 
De continuo adiamento. 
Sei que é preciso prestigiar a esperança, 
Numa sala de espera. 
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, 
Esperança sentada. 
Não abdicação diante da vida. 


A esperança 
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera. 
Nunca é figura de mulher 
Do quadro antigo. 
Sentada, dando milho aos pombos.

(Cassiano Ricardo)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Que queres que eu faça?


Ex-voto

(Adélia Prado)
Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Voce é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo

Respira fundo, insistiu !
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico

Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.

Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?

Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.

O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.

Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?

Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.

Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.

Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Dá-me olhos que vêem



Acontece em abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

(...)

Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão. Será egoísmo curti-los na moita, deixando de comentar com os amigos e até com desconhecidos que por acaso ainda não perceberam o raro presente de abril: "Repare como o dia está lindo".

(Carlos Drummond de Andrade, "Os dias lindos")

domingo, 31 de março de 2013

Significados

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo,aduba.
O que parece estático,espera.

(Adélia Prado, no poema "Leitura")

domingo, 24 de março de 2013

Duas coisas

O barulho invade o meu silêncio
E a vida corre
As malas ainda estão fechadas
mas o peito está aberto e sangra
E eu que pensava só ter cicatrizes

O dia e a noite se confundem
O tempo, único tesouro que ainda me pertencia
Me foi tomado
Em troca, exigiram que eu "crescesse"
Fingindo ser quem (ainda) não sou
Quem não fui
Quem, suspeito,nunca serei

O sorriso é amigo
Mas o abraço falta
O novo encanta
Mas o de sempre (sempre) assusta

Enquanto ando em busca de paciência
O tempo acelera, lenine, e pede pressa
Quando decido correr
Ele me engana, trapaceia, e nunca passa

Em busca de mim
Em busca do(s) outro(s)
Em busca de Deus
Me deparo com o medo e a insuficiência
Ansiando pela cura do amor que lança fora o medo
E da graça além do entendimento


Minha razão, acostumada a ter vez e voz
Se cala ante o sentimento, adélia, a coisa mais fina do mundo
(às vezes fino demais, afiado demais, como cortante punhal)
E se lembra - porque lembrar é da razão e traz esperança-
Que restam duas coisas no mundo, apenas duas: a miséria e a misericórdia
Minha miséria.
Tua misericórdia.

domingo, 10 de março de 2013

O avesso do avesso





Da feia fumaça que sobe,apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos,espaços
Tuas oficinas de florestas,teus deuses da chuva




domingo, 17 de fevereiro de 2013

(Or)ação



Sou arco em tuas mãos,Senhor
Estenda-me,para que eu não perca a utilidade.
Não me estendas além da conta,Senhor,posso quebrar.
Estende-me além da conta,Senhor - e daí se eu quebrar?

(Nikos Kazantzakis)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Súbito

Momento (Adélia Prado)

Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico
uma garrafa de pimenta pelo meio
um latido e um céu limpidíssimo
com recém feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares,em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Viver é muito perigoso (13)

"Penso nesses meninos e tenho pena porque sei que alguns de seus sonhos vão sumindo nos caminhos da medicina, porque sei que veem tão artisticamente a profissão, tão sonhadoramente, que mais tempo menos tempo podem angustiar, vai ver até perdem essa visão. Para querer ser médico precisa sonhação, e para ser médico tem de acostumar a brigar por sonhos,ou a esquecer. E há algo mais triste que abandonar um sonho? Perder sonho é perder pedaço, o senhor sabe. Que os sonhos são feitos aos miúdos do que a gente quer de melhor, de ideal, é uma espécie de poesia. Sonho é ingenuidade,será?"
('João Guimarães Rosa' na voz de Marcella Israel Rocha em "Sobre os estudantes")

#reflexõesdeformatura